Acre

Ela é diferente! “O político precisa estar próximo das pessoas e voltado para a coletividade”, diz vereadora Elzinha Mendonça

“Obtive uma votação muito expressiva e já absorvi o tamanho da minha responsabilidade. Seriedade, transparência e compromisso são palavras de ordem do nosso mandato. Eu nunca prometi nada a ninguém que não pudesse cumprir. A política não vai mudar a minha essência”

“Eu acredito na boa política: aquela feita com grandeza, que se preocupa com o coletivo e não com o pessoal. Exerço o cargo de vereadora porque acredito nisso”

A presença da mulher na política não é só uma questão de igualdade de gênero, mas de contribuição ativa, por causa de suas habilidades em lidar com circunstâncias adversas e com as crises que atingem as famílias e a sociedade, sem perder o charme e a sensibilidade.

Jorge Natal, Elzinha Mendonça

As mulheres vêm conquistando espaços, muitas vezes assumindo o papel de chefes de família, sem deixarem de participar de debates e dos engajamentos nas lutas sociais. Estão contribuindo de forma significativa para melhorar a política, em uma sociedade que foi constituída sob a égide do patriarcalismo, na qual o homem sempre ocupou o espaço público, e a mulher, o privado.

Falar em diferenças comportamentais entre homens e mulheres no exercício de alguns cargos e funções trata-se de algo bastante relativo, pois aspectos como questões morais, por exemplo, não necessariamente se manifestam de forma diferente a depender do sexo. Assim, bom político é aquele que tem compromisso com a democracia e a coletividade, seja homem ou mulher.

Elzinha Mendonça em visita aos bairros de Rio Branco

Para a vereadora Elzinha Mendonça (PDT), de 46 anos, o político precisa estar em contato direto com as comunidades, bem como, firmar compromissos com a população. Na opinião da vereadora, a população está ávida por uma representação proativa e comprometida com o desenvolvimento e a justiça social. “Além de fazer proposições e fiscalizar, o parlamentar precisa ser voz das pessoas”, assim concebe a parlamentar.

Funcionária de carreira da Federação das Indústrias do Acre (Fieac), ela se formou em Administração de Empresa e se pós-graduou em Gestão de Pessoas pela Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO). Defende uma proposta de autodesenvolvimento e empreendedorismo, ao mesmo tempo em que leva uma mensagem de fé e esperança. “Se desistirmos, foram eles que nos venceram”, parafraseia a vereadora.

Elzinha Mendonça na sede da Fieac em Rio Branco

Em sua concepção, as políticas públicas devem ser adaptadas à nossa realidade, posto que, comumente, importam-se modelos, tecnologias e projetos com experiências que, nem sempre, são as mais adequadas para a região. “Precisamos inovar, quebrar paradigmas. A política partidária ainda é a forma mais viável ou apropriada de melhorar a vida das pessoas”, diz.

Apesar do descrédito que sofre a classe política na atualidade, ela acredita na boa política e afirma que é possível transformar Rio Branco em um lugar próspero e com um povo feliz. “A ética não é só possível, mas necessária, mesmo porque, como bem disse um pensador, ‘a política só tem um único propósito, que é devolver para as pessoas aquilo que é delas’”.

Elzinha Mendonça em visita aos Bairros de Rio Branco

Caçula de uma numerosa família, Elzinha nasceu no seringal Porto Carlos, no município de Assis Brasil. Foi registrada em Rio Branco e alfabetizada aos 10 anos. Casou-se jovem e teve dois filhos. Foi balconista, recepcionista, secretária e microempresária do setor de transporte.

Todavia, foi na Associação dos Portadores de Hepatites do Estado do Acre, a Aphac, que ela descobriu sua vocação para o social. “Comecei na parte administrativa e depois fui presidente”, lembra Elzinha Mendonça, que depois se afastou do cargo para concorrer a uma das cadeiras na Câmara de Vereadores. Foi a segunda mais bem votada, com 3.878 votos, a maior votação dada a uma mulher para o cargo.

Nesta entrevista concedida em seu gabinete, ela fala dos últimos acontecimentos políticos no município, da sua origem humilde, da causa em favor das pessoas acometidas por hepatite e, sobretudo, de sua vontade de fazer, como a mesma diz, a boa política. Veja os principais trechos da conversa:

Acre Real – A senhora sempre teve uma ligação com a iniciativa privada e o empreendedorismo. Como foi que se inseriu no movimento social, notadamente, na Aphac?

Elzinha Mendonça – Eu era casada com uma pessoa que foi acometida por uma hepatite. Isso nos aproximou da entidade. Fomos buscar conhecimento sobre a doença e, ao mesmo tempo, ajudar outras pessoas. Eu levei a minha formação e experiência para a associação, que estava muito desorganizada naquele momento.

Acre Real – Que experiência a senhora ganhou? Qual foi o trabalho que fez?

Elzinha Mendonça – A Aphac tem cerca de 2.800 pessoas cadastradas. No entanto, a OMS (Organização Mundial de Saúde) afirma que termos, no Acre, cerca de 40 mil pessoas vitimadas pela doença. Esse número, bastante expressivo, foi o que nos motivou a tratar essas pessoas. Não existia o tratamento que temos hoje. Na época, o tratamento para Hepatite C era à base de Ribavirina e Interferon, cujos efeitos colaterais eram terríveis, muitas vezes, piores do que a doença em si. Hoje, o tratamento é apenas em três meses, com uma medicação sem efeitos colaterais. Nós acompanhamos muitas pessoas que ficaram curadas. O Acre foi o primeiro estado a receber essa medicação. A doença não afeta somente as classes baixas. Hoje, nós temos um dos melhores tratamentos para hepatite. Já fizemos mais de 20 transplantes de fígado com sucesso em nosso estado. O doutor Tércio Genzine, que é um dos maiores especialistas do Brasil, vem periodicamente ao Acre para salvar vidas. Isso nos causa um profundo bem estar, uma satisfação que não tem preço.

Acre Real – Como se deu a sua transição do movimento social para a política partidária?

Elzinha Mendonça – Eu nunca tive a intenção, essa necessidade de projeção para me inserir no meio político. Sempre fui muito de bastidores. Você já viu alguém fazer alguma coisa sozinho? Sempre fui de equipe. E foi por causa disso que surgiu a necessidade de termos um representante na esfera do município, uma vez que já tínhamos no estado. Éramos um grupo de 60 pessoas. O meu nome surgiu naturalmente, embora, no primeiro momento, eu tenha resistido bastante. Eu não me enxergava como a protagonista da história. Pedi orientação a Deus e fui convencida daquele desafio. Tivemos quase 4 mil votos. Também tive a grata surpresa de saber que fui a mulher mais bem votada para o cargo, em todo o estado. Não falo isso com soberba, mas com orgulho por ser maisher, cidadã e chefe de família.

Acre Real – Terminada eleição, a senhora e a sua equipe fizeram um planejamento. Que metas vocês decidiram alcançar? Quais são as bandeiras de luta do mandato?

Elzinha Mendonça – Eu confesso que foi uma situação bastante difícil pra mim. Uma coisa é ser de bastidores, outra, de vitrine. A minha vida passou a ser pública. Uma coisa é você olhar o parlamento de fora, outra é estar dentro dele. Eu senti muitas dificuldades. No entanto, eu tive muita ajuda, pois, como já disse, ninguém faz nada sozinho. Quanto a minha atuação? Bom, eu fui eleita com a bandeira da saúde e apresentei um projeto para a área. Depois, um para o meio ambiente e outro para a educação. Em visitei mais de 1.200 casas durante a campanha. Depois de eleita, comecei a voltar nessas casas para agradecer os votos e, ao mesmo tempo, receber demandas e sugestões para o mandato. Já visitei a metade desse número. Eu ando muito nos bairros e confesso que sou um pouco acelerada. Eu me cobro muito e constantemente faço autocrítica. Foi uma votação muito expressiva e já absorvi o tamanho da minha responsabilidade. Seriedade, transparência e compromisso são palavras de ordem do nosso mandato. Tento exercer um mandato democrático e voltado para a coletividade. Eu nunca prometi nada a ninguém que não pudesse cumprir. A política não vai mudar a minha essência.

Acre Real – Isso quer dizer que é possível fazer política com ética?

Elzinha Mendonça – Acredito na distante, porém necessária, necessidade de fazermos política com ética. É necessário, imprescindível, diria. A ética deve ser um valor permanente e inegociável. Tão somente do agente público? Não! De todos nós. Tem uma máxima que é a seguinte: se os homens de bem não se manifestarem, os mal intencionados irão tomar conta da política. Também não aceito a omissão porque, para o mal triunfar, basta que os homens e mulheres de bem não façam nada. O problema da má política não é o conteúdo programático dos partidos, mas o caráter das pessoas. Os partidos são constituídos por pessoas, que não vieram de outros planetas, mas da nossa sociedade, tal como ela é. O poder apenas revela o caráter das pessoas. Eu acredito na boa política, aquela feita com grandeza, que se preocupa com o coletivo e não com o pessoal. E exerço o cargo de vereadora porque acredito nisso.

Acre Real – A bancada feminina na Câmara foi reduzida em 50%. Como é ser parlamentar em um ambiente dominado pelos homens?

Elzinha Mendonça – Independente de cores políticas e gênero, existe uma relação de respeito entre os vereadores. A meu ver, isso é a base de tudo. Se eu disser que é fácil, estarei mentindo. O mundo é machista. Eu não sou feminista, mas abraço as causas das mulheres. Por quê? Pela força que temos. Somos a maioria da população e, consequentemente, de eleitoras. Infelizmente, principalmente no parlamento, somos minoria. As mulheres ainda têm medo de adentrar neste universo. Se não buscarmos o empoderamento das mulheres, se não nos unirmos, estaremos sempre em desvantagem nas representações políticas.

Acre Real – A senhora é da base de sustentação do prefeito Marcus Alexandre. Como analisa o virtual afastamento dele para ser candidato a governador? E as denúncias de corrupção envolvendo o nome dele?

Elzinha Mendonça – Eu tenho uma relação de parceria e de respeito com ele. Sou do PDT, portanto, componho a base de sustentação do prefeito na Casa. A administração municipal não é perfeita, no entanto, eu acredito no compromisso e na reponsabilidade que o Marcus Alexandre tem com a população. Não aceitamos tudo de olhos vendados, mesmo porque, pertencemos a outra legenda. Mesmo diante de toda essa desmoralização que vivenciamos, eu acredito no projeto da Frente Popular e na honestidade do prefeito.

Acre Real – Qual a avaliação que a senhora faz da sua atuação na política partidária?

Elzinha Mendonça – Eu aprendi muito. Temos que avançar mais. Eu quero crescer e sempre falei que não seria apenas mais uma. Eu tenho me esforçado muito para fazer um bom trabalho. Eu quero mostrar que ainda existem pessoas que acreditam e fazem a boa política. Eu posso dar essa contribuição para a sociedade. Com decência, caráter, compromisso, respeito com a coisa pública e amor. Isso também está faltando no nosso meio. Mesmo que eu não mude o mundo, sei que estou fazendo a minha parte.

Acre Real – As sucessivas administrações da Capital pouco ou nada fizeram pela questão ambiental. Quase todo o esgoto produzido na cidade não é captado ou não tem tratamento? Comente sobre isso.

Elzinha Mendonça – Realmente, somos precários no tocante às questões ambientais e de saneamento. Todavia, não podemos só colocar a culpa no poder público. Nós, enquanto população, precisamos fazer a nossa parte. Eu, antes de ser uma vereadora, sou uma cidadã. Obviamente, cabe ao poder público promover a educação ambiental para que tenhamos, a médio e a longo prazo, uma mudança de hábitos. Um dos meus três projetos está voltado para o meio ambiente. Faremos proposições que incentivarão as pessoas a separarem o lixo para, dessa forma, compartilharmos responsabilidades. Há poucos dias, houve a inauguração de um Eco Ponto no Conjunto Tucumã, o primeiro a ser criado na cidade. Estamos na iminência de aprovar os nossos planos de resíduos sólidos e saneamento básico.

Acre Real – Como a senhora analisa a corrupção endêmica e sistêmica, por mais de uma década, na Empresa Municipal de Urbanização de Rio Banco (Emurb)?

Elzinha Mendonça – Não me cabe julgar ninguém. Esse é o papel é da Justiça. Já foram deflagradas três fases da investigação, que ainda não foram concluídas. Como eu havia dito antes, as ações dos gestores públicos deveriam ser pautadas pelo interesse público. É lamentável porque o dinheiro desviado poderia ser usado para beneficiar a nossa população.

Acre Real – A senhora fala muito em Deus e fé. És religiosa?

Elzinha Mendonça – Eu não sou religiosa. Eu acredito em Jesus Cristo e, há seis anos, frequento a Igreja Batista para as Nações. Para tudo o que eu faço nessa vida eu peço orientação de Deus. A minha vida é pautada dessa forma. Não sou a pessoa mais perfeita do mundo. Só Jesus Cristo foi e é assim. Entendo que o ser humano precisa da espiritualidade. Eu sirvo a um Deus verdadeiro, vivo, que me direciona, sustenta, e me fez chega onde eu estou.

 

Jorge Natal

Jornalista

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