Crônicas do Jorge Natal

O dia em que o “Carcará” foi cozinhado em praça pública

Por Jorge Natal

Um dos homens que um dia foi um dos mais poderosos do Acre, durante o governo de Nabor Júnior, de 1983 a 1986, o ex-senador da República e ex-prefeito de Cruzeiro do Sul, Aluísio Bezerra de Oliveira, de 80 anos, caracterizou-se como um democrata tão atuante quanto polêmico.

Ex-senadores e Ex-prefeito Aluízio Bezerra

Foi o autor da emenda constitucional e de toda a legislação ordinária seguinte que permitiu a aposentadoria e o pagamento de outros benefícios aos ex-seringueiros e seus familiares identificados como “Soldados da Borracha”. Foi apelidado pelos adversários como “Carcará”.

Nasceu em um seringal às margens do rio Juruá. Atuou na clandestinidade durante o Regime Militar como membro do então PC do B. Na época, ingressou no extinto MDB e foi eleito primeiro suplente de deputado federal em 1974. Um ano depois, fundou o diretório municipal do MDB em Cruzeiro do Sul, sendo seu primeiro presidente. No ano seguinte, temendo ser preso, refugiou-se na França e ali obteve o título de doutor em Direito Internacional e Relações Políticas Internacionais na Sorbonne, Universidade de Paris, em 1978. Era advogado.

Com a redemocratização do país, acabou ingressando no PMDB e, em 1982, já na condição de primeiro suplente de deputado federal, foi um forte cabo eleitoral do então candidato a governador Nabor Júnior e do candidato ao Senado Mário Maia. Com a vitória do PMDB sobre o candidato do PDS, Jorge Kalume, e com a sua eleição de deputado federal, tornou-se um dos mais fortes e influentes líderes locais, criando, no âmbito estadual, a chamada Tendência Popular, integrada por vários peemedebistas considerados ideologicamente à esquerda do partido, sigla que tinha forte influência no governo de Nabor Júnior.

Ele havia ingressado no serviço público, na Câmara dos Deputados, em 1964 como técnico legislativo. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), em 1969, com especialização pela mesma instituição, em 1973, ano em que também se formou em Administração pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (Uniceub).

Elegeu-se deputado federal em 1982. Votou pela Emenda Dante de Oliveira e depois, no Colégio Eleitoral de 1985, em Tancredo Neves. Em 1986, foi eleito senador constituinte, ao lado de Nabor Júnior.

Quando deputado federal constituinte, em 1988, admitiu ter votado pelos cinco anos de mandato para José Sarney em troca da inclusão de um pedido de liberação de verbas para a construção da Rodovia Transcontinental, que ligaria o Acre ao Peru. Sua grande causa era a interligação por via terrestre do Brasil com o Peru, por uma estrada de terra ou de ferro de Cruzeiro do Sul com a cidade peruana de Pucalpa, algo que não foi avante, apesar das ligações do parlamentar com o poder central do país, porque a região de selva que separa Brasil e Peru, à época, servia de valhacouto dos membros do Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro que causou um banho de sangue no país andino, durante os anos 80.

Apesar de sua luta pela integração do Brasil com o Peru, foi acusado por adversários de ter dado o voto pelos cinco anos do mandato de Sarney em troca da concessão de uma emissora de rádio e TV em Cruzeiro do Sul, a chamada Rádio e TV Integração, uma prática comum daqueles anos em relação a parlamentares de todo o país.

Em 1992, votou pelo impeachment de Fernando Collor. Tentou a reeleição para senador, em 1994, mas não obteve êxito. Em 1996, elegeu-se prefeito de Cruzeiro do Sul. Enfrentou uma oposição duríssima do então combativo vereador Henrique Afonso. Mesmo assim, fez um mandado razoável, inclusive se credenciando para disputar a reeleição.

Apesar de todo esse currículo e trajetória, o político foi ficando conservador e ranzinza. Segundo se comentava à boca de matildes, à lá Rasputin ou Dom Juan, fazia investidas nada discretas contra moças não necessariamente solteiras ou interessadas em seus galanteios. Assim, talvez, o apelido seja uma alusão à belíssima letra da música do poeta João do Vale: “Carcará pega, mata e come”.

Desgastado com uma parte considerável do eleitorado, o prefeito ainda cometeu o crucial erro de atrasar o pagamento dos servidores públicos, não obstante à insensatez de brigar com os taxistas, ao apresentar um projeto que aumentava o número de placas na praça.

Dia da eleição e a cidade amanheceu infestada de azul. Aluísio Bezerra pagou milhares de militantes para vestirem camisetas. Porém, a maioria, depois de receber o dinheiro, passou a trajar blusas amarelas do adversário César Messias. Detalhe: a galera já estava com estas debaixo da azul-celeste. O prefeito perdeu por uma pequena margem de votos.

Praça de táxi de Cruzeiro do Sul

E aí veio o regozijo dos desafetos. Um grupo de taxista, ali mesmo em frente ao Mercado Joãozinho Melo, improvisou uma fogueira, arranjou um caldeirão e um pato. Como faixas, cartazes e um alto-falante fizeram a maior algazarra. A tropa de choque do prefeito chegou e começou uma briga generalizada, que só terminou com a intervenção da polícia. Além do resultado eleitoral, aquela data ficou conhecida como o dia em que o Carcará foi cozinhado em praça pública.

 

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