Política em Foco

Crônica para o Totinha

Escrita em homenagem ao ex-prefeito e ex-deputado federal João Tota, por ocasião de seu falecimento, em abril, Acre Real rememora, a Crônica que em tom prosaico, conta parte da nossa história política, e suas picardias.

Era o início dos anos 80. A Redemocratização e o PMDB estavam na moda. Vagner Sales era apenas um barnabé, que vivia se queixando das “perseguições” perpetradas pelo então prefeito de Cruzeiro do Sul, João Tota (Arena), a quem chamava de TOTAlitário.

A coisa ficou tão séria ao ponto, acredite se quiser, que Sales fez tocaia para ceifar a vida do alcaide. Com uma faca na cintura, fez campana nas escadarias da prefeitura. Que ironia do destino! Sabem quem o viu em meio àquela macabra-pitoresca cena? Osmir Lima, correligionário e co-munícipe de Sales. Os cruzeirenses tinham lá seus bairrismos.

Totinha, paraibano, colecionador de bebidas e fotos, era generoso e um exímio anfitrião. Mas jamais negaria suas origens. Ao contrário, tinha orgulho de ser sertanejo e flamenguista. Às vezes turrão, às vezes direto demais, Totinha se caracterizou principalmente por ser um homem de palavra. Não foi à toa que ficou dez na prefeitura e depois se tornou deputado federal, por vários mandatos, diga-se de passagem.

Mas voltemos à nossa historinha. Osmir Lima, homem culto, pacifista e maçom disse-lhe:  pare com essa besteira! Mate-o politicamente. Seja candidato a vereador e faça uma dura oposição a ele. Resumo da ópera: Sales não só foi candidato como foi o mais votado naquelas eleições.

Final de mandato, o prefeito, que mudara a pouquíssimo tempo para a sua nova casa, na fazenda, decidiu inaugurar uma piscina. Era vaidoso. Convidou a elite intelectual e financeira da cidade. Comandante dos Bombeiros, PM, PF, RF e Exercito. Eram todos de sua cozinha. Festa apenas para os mais próximos.

Sabendo da “nabalesca farra”, Sales, insinuando que era à custa do erário, matutou, matutou até que… Hum, disse ele: se o prefeito quer aparecer, pois vou levar o público pra ele.

Contratou um motorista que, com sua Brasília e dois alto-falantes instalados no teto, fez o seguinte convite pelas ruas da cidade: “atenção, o prefeito de Cruzeiro do Sul, João Tota, convida, neste domingo, toda a população de Cruzeiro do Sul para um grandioso churrasco na sua nova casa. Levem roupas de banho. Os caminhões sairão dos locais, x y, z….

Por volta das 10 horas daquele ensolarado e fatídico domingo, Totinha, que estava degustando e exibindo uma cachaça-de-cabeça para seus seletos convidados, dá-se pelo ronco de um dos muitos caminhões que chegariam àquele remoto lugar. Desceram, cumprimentaram e parabenizaram o político. Somente naquele momento João Tota se deu conta da enrascada em que estava metido.

Que nada! Mandou imediatamente matar um boi e pediu para os “convidados” ficarem à vontade. Também mobilizou os empregados, inclusive os que estavam de folga. E quem foi que disse que os caminhões paravam de chegar? Vieram, inclusive, os das agrovilas mais distantes. Totinha não perdeu o rebolado. Mostrando tranquilidade, incluiu carneiros e porcos ao cardápio.

Sol a pino e não parava de chegar gente em caminhões, motos, bicicleta e a pé.

A piscina tinha mais de um palmo de areia. Os convivas estavam exaustos. Mas o prefeito relaxou. Soltava gaitadas com aquela inusitada situação. Num determinado momento, um empregado trouxe mais uma notícia: “acabou a carne, Seu Tota!”. Era o sétimo boi sacrificado. Mas o prefeito, bonachão, nem titubeou: mata mais um, ordenou.

Então, a esposa Dona Vitória, mulher sábia e de fino trato, interveio: chega, Totinha!

Jorge Natal
Jornalista

 

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